AULA 02 – HISTÓRIA DA BORRACHA

História de uma profissão

SNCP: UMA ORGANIZAÇÃO PROFISSIONAL A SERVIÇO DA INDÚSTRIA DA BORRACHA HÁ MAIS DE 150 ANOS

Em meados do século 19, a borracha é uma matéria nova que fascina. A melhora das técnicas de transformação, e especialmente a implementação da vulcanização, garantirá a emergência de uma indústria especializada em primeiro lugar no serviço de aplicações tradicionais (sapatos, têxtil/vestuário...), e em seguida a favor das aplicações inovadoras (maquinismo, equipamento elétrico, bicicleta, e em especial automóvel...).

O SNCP vai acompanhar o excelente desenvolvimento dessa indústria de transformação. Como organização profissional, ele vai assegurar a defesa e a promoção em contextos econômicos e políticos mais diversos (períodos liberais, períodos protecionistas, períodos de guerra...).

A história de um Sindicato Profissional reflete seguramente a história do setor de atividade que ele representa, uma história particularmente rica na área da borracha, com excelentes aventuras humanas, industriais ou comerciais.

A história de um Sindicato Profissional não pode ser limitada, porém, à simples adição da história dos seus aderentes. As ações coletivas desenvolvidas no seu âmbito demonstram a evolução das grandes preocupações de uma Profissão e da sua capacidade a construir ações coletivas.

No decorrer desses 150 anos, o SNCP vai administrar diversos arquivos relacionados com preocupações recorrentes (as matérias primas, o social, os direitos alfandegários, os aspetos de higiene e segurança, a formação profissional...) ou específicas de um determinado período (gestão da penúria de matérias primas, relações com os cultivadores indochineses, gestão dos preços de venda industriais, valorização dos resíduos...).

O SNCP também soube, ao longo desse período, dotar a Profissão da borracha de estruturas de acompanhamento, na área da formação, da P&D ou também da representação europeia.

As páginas seguintes percorrem em 12 períodos os 150 primeiros anos do SNCP. Subjacentemente, a história do setor, mas também a história industrial, econômica e social da França, da Europa e do Mundo.

1. UMA INDÚSTRIA NOVA COM UM FUTURO PELA FRENTE (1863-1890)

Os anos 1860: um período próspero

Napoleão III está no comando do segundo Imperio há mais de 10 anos. A França atravessa um período próspero, se enriquece e rivaliza com a primeira potência naquela época a Inglaterra.

O país construi infraestruturas modernas e um sistema financeiro inovador. O expanssionismo francês está em andamento na África, mas também na Ásia. O período também se revela particularmente rico na área das artes, ciências e técnicas. As inovações industriais e comerciais se multiplicam : fotografia, grandes lojas, indústria da borracha...

Após um período protecionista, o Império entra, no início dos anos 1860, numa fase liberal tanto no plano econômico como político.

Uma quarentena de borracheiros

No início dos anos 1860, a França conta com uma quarentena de transformadores de borracha consumindo anualmente 600 toneladas de borracha bruta. Dentre esses pioneiros, apesar de algumas empresas terem sumidas (Caoutchouc Alpha, Etablissements Maurel, Compagnie du caoutchouc manufacturé Dynamic, Delacoste, Berguerand...) ou foram absorvidas (Rollin...), alguns grupos atravessaram com sucesso os anos e se tornaram líderes no seu mercado. Como por exemplo, a sociedade Barbier et Daubrée (antepassada da Maison Michelin) criada em 1832, Safic-Alcan em 1847 e Hutchinson em 1853!

Criação em 1863 da câmara sindical da borracha, antepassada do SNCP

O dia 22 de janeiro de 1863 foi fundado pela Câmara sindical patronal da borracha para defender os interesses dessa nova indústria. Uma dessas primeiras ações será a buscar direitos alfandegários protecionistas sobre entradas de artigos de borracha fabricados, proveniente da Inglaterra.

Inicialmente, a Câmara sindical fazia parte do grupo da União nacional do comércio e da indústria. Pouco tempo depois da promulgação da lei o 21 de março de 1884 relativa à existência legal dos sindicatos profissionais, ela deixa essa associação e se torna membro do Comitê central das câmara sindicais. Ela muda de denominação e se torna o «Sindicato profissional das borrachas, guta-percha, lonas enceradas, lonas couro, etc...». Após ter ocupado locais como o boulevard de Sébastopol no 3o distrito em paris, rue Lancry (10o distrito) e em seguida boulevard Saint-Germain (6o distrito), o Sindicato muda de local, em 1887, rue Sainte-croix-de-la-Bretonnerie, no 4o distrito.

Um sindicato da borracha, federativo e regulador da Profissão

Desde os anos 1880, o Sindicato ampliou sua estratégia. Ele desenvolve, a favor de seus aderentes, um sistema de informações relativo especialmente nos mercados estrangeiros e no curso da goma bruta.

Para proteger seu mercado interno, o Sindicato também intervém regularmente junto às autoridades públicas sobre as questões aduaneiras. Por conseguinte a comissão aduaneira assim como o governo aceita as "legítimas reivindicações » dos diferentes ramos da indústria da borracha. Ao demonstrar os esforços empreendidos pelo seu presidente, Sr Sriber, junto ao Ministério do Comércio para garantir a evolução dos direitos aduaneiros no fim do século 19 e no início do século 20.

Além disso, o Sindicato atua como um regulador da Profissão da borracha. Ele intervém, por exemplo, a pedido do tribunal de comércio da Sena, para solucionar amigavelmente os litígios ou as dificuldades das empresas do ramo.

A borracha e a guta percha, 1892, Edição Marchal e Billard.

« As condições gerais nas quais se exerce a indústria da borracha e da guta percha se exerce, na França, são as seguintes: a duração do trabalho diário é de onze horas. A maioria das usinas empregam um número bastante considerável de operários. Atualmente, a jornada de trabalho começa às seis horas da manhã no verão, e acaba às seis horas da noite e no inverno, a jornada de trabalho começa às sete horas da manhã e termina às sete horas da noite; e tem um intervalo de uma hora para o almoço. De acordo com a natureza do trabalho e os usos locais, os salários são contabilizados por hora ou dia de trabalho. . Há no entanto, nos últimos anos, uma grande tendência de pagar os operários em espécie. Alguns estabelecimentos instituíram seguros médicos e de aposentadoria.Não podemos recomendar aos fabricantes para entrarem resolutamente nesse sentido e de tentarem, igualmente, envolver a participação do seus funcionários nos benefícios. Não podemos recomendar aos fabricantes de entrar decididamente nesse sentido e também para tentar envolver seus funcionários nos lucros. Essas medidas, sensatas e liberais, provocarão a favor dos industriais uma atuação mais zelosa e dedicada por parte dos seus colaboradores». Edmond Chapel, Secretário geral do Sindicato da borracha.

2. A BORRACHA ACOMPANHA O NASCIMENTO DO AUTOMÓVEL (1890-1914)

Primeira mutação da indústria da borracha

No decorrer da segunda parte do século 19, a indústria da borracha trabalha em um primeiro momento a favor dos setores tradicionais (sapatos, vestuários, brinquedos...) fazendo concorrência, por vezes, com outras matérias, como o couro. Em um segundo momento, as potencialidades da matéria beneficiam de aplicações inovadoras (maquinismo, cabos e equipamento elétrico, bicicleta, automóvel, aviação...). A partir dos anos 90, a indústria da borracha inicia uma especialização na produção de bens intermediários (pneumáticas, ataduras, juntas, correias...) abandonando relativamente os bens de consumo.

Estruturação do Sindicato em seções

Até os anos 1890, o Sindicato da borracha possui uma estrutura unitária. Ele é um "local de sociabilidade e de trocas de informação destinadas a estruturar a Profissão e forjar sua identidade". O envolvimento de grandes personalidades tais como os irmãos Michelin simboliza esse posicionamento. O Sindicato também garante a interface entre a Profissão e seu ambiente institucional.

O desenvolvimento do pneumático, no fim do século 19, permitirá ao Sindicato de evoluir sua estrutura e constituir seções envolvendo os  industriais por especialidade. Em 1898, uma primeira secção agrupando os fabricantes de pneumáticos foi criada; representada por André Michelin. Um ano mais tarde, uma segunda secção agrupando os industriais do fio e tubo de látex foi criado. No fim do século, o Sindicato conta com pelo menos seis seções. Este número evoluirá à medida da evolução da indústria da borracha e da sua diversificação.

As exposições universais de Paris em 1889 e 1900

As exposições universais, vitrines do progresso industrial, constituem uma fantástica ferramenta de propaganda da riqueza e da potência das nações. Os transformadores de borracha não hesitam em aproveitar dessa oportunidade para apresentar seus últimos desenvolvimentos. Devido às dificuldades encontradas durante a exposição de 1889, o Sindicato da borracha intervirá firmemente junto aos organizadores da edição de 1900, para que os borracheiros possam expor conjuntamente e dispor de localizações de qualidade.

Higiene, segurança e formação profissional

Novos assuntos de preocupação emergem e são tratados pelo Sindicato da borracha no início do século 20.

A profissão começa a se interessar, coletivamente pelo seu Sindicato, sobre às questões relativas à formação profissional. Ao mesmo tempo a indústria da borracha enfrenta uma crise devida à transformação dos meios de trabalho e ao progresso do maquinismo. Neste impacto, o Sindicato frequenta "a Comissão permanente mista das indústrias de construção" fortemente envolvida na evolução dos textos regulatórios relativos à formação profissional.

As primeiras preocupações em termos de higiene e segurança deram origem nesse período. Em 1910, o Sindicato realiza um importante estudo sobre a recuperação de vapores de benzeno nos ateliês. Essa última é realizada com base nas experiências das empresas aderentes e detalha os diferentes sistemas existentes para "sanear a atmosfera".

Da borracha selvagem para a borracha em plantação

Até o início do século 20, os transformadores só têm à disposição borrachas qualificadas de "selvagem" ou "silvestre". A produção dessas borrachas se baseia em um sistema de colheita implementado no coração das florestas brasileiras ou africanas. Esse sistema se revela cada vez mais insuficiente para face às necessidades mundiais, tanto em quantidade como em qualidade, que emergem devido ao desenvolvimento da indústria pneumática. A cultura da hevea Brasiliensis, desenvolvida pelos ingleses no Sudeste da Ásia, abre o caminho para a borracha de plantação. Em um primeiro momento, essa atividade parece extremamente proveitosa devido aos níveis de preços particularmente elevados. Em 1909, a qualidade "para" que era cotada a 22 francos o quilo (ou seja, 71 €) atingidos em 1910 35 francos (113 €). A Ásia é vencida pela febre da borracha. Os investimentos se multiplicam de forma significativa na Malásia, Ceilão e nas Índias neerlandesas e contribuirão na aparição de uma oferta excedente depois da guerra. A superprodução pesará sobre os custos e irá requerer a implementação de dois planos sucessivos de restrição limitando as exportações de goma e a criação de novas plantações.

3. O DESAFIO DA GRANDE GUERRA (1914-1918)

A borracha, uma matéria prima estratégica, totalmente importada

Ao longo do primeiro conflito mundial, a borracha demonstra ser uma matéria prima estratégica para a proteção dos homens (máscaras de gás, casacos impermeáveis, botas...). A partir de 1915, algumas fábricas de borracha trabalham exclusivamente para as necessidades da defesa nacional. Essa guerra de trincheiras, e não de movimentos, terá em contrapartida um impacto mais limitado às necessidades de borracha vinculadas à mobilidade das tropas (pneumáticas, revestimento das lonas dos dirigíveis ou asas de avião...). Que será diferente no decorrer do segundo conflito mundial.

O caminho da borracha para a Inglaterra

Desde o início do conflito, a preponderância comercial da Inglaterra, na área da borracha, se fortalece pelo fechamentos dos mercados da Antuérpia e Roterdão.

É somente a partir de 1917 que o abastecimento da borracha se torna preocupante para a França. A goma é proveniente de cerca de 75% das colônias inglesas ou neerlandesas do sudeste da Ásia, e a guerra submarina comandada pelos alemães, perturba seriamente o trânsito marítimo. Le Havre e Marselha não estão mais abastecidos diretamente. Os industriais franceses se viram obrigados a receber suas balas de borracha pela Inglaterra o que leva a custos adicionais e aumenta os prazos.

Para resolver o melhor possível os problemas de abastecimento, a 5a seção do serviço técnico do ministério de comércio e da indústria se encarrega, a partir de 1917, com a ajuda do Sindicato da borracha, de instruir as demande de importação com os ingleses. Durante o verão de 1918, esses últimos ameaçam interromper as vendas de goma natural para a França. O Sindicato da borracha envia para Londres um representante, que, sob o controle e o apoio das autoridades francesas, demonstra com sucesso às autoridades inglesas que as medidas pretendidas não estão justificadas.

A Alemanha procura borracha em qualquer preço

A Alemanha, por seu lado, está confrontada a problemas de abastecimento da borracha desde o início do conflito. Em 1914, o país é vítima do bloqueio das forças da tríplice entente (França, Grã Bretanha, Rússia e em seguida USA a partir de 1917). O seu abastecimento de goma, matéria prima totalmente importada, se torna muito problemático. Devido à quase ausência de reservas de segurança, a escassez instala rapidamente. As autoridades alemãs tentarão contornar esse bloqueio de diferentes maneiras.

Em 1916, elas conseguem, por exemplo, a proeza de enviar um submarino através o Atlântico até Baltimore nos USA afim de trazer uma carga de borracha. Este não proporciona a fabricação de muitos pneus, mas sim de máscaras de gás, acessório ainda mais vital. Alguns tráficos de itens feitos de borracha com destino para Alemanha se organizam em países neutros (Holanda, Suíça, Suécia). Os intermediários compram, a favor dos alemães, quaisquer produtos de borracha suscetíveis de serem regenerados e utilizados para produzir itens necessários para os militares.

Na França, as exportações de itens feitos de borracha destinados a países neutros suspeitos de abastecer a Alemanha, estão sujeitos, pelas autoridades públicas, de um controle muito estrito. O sindicato da borracha coopera com as autoridades francesas e atua para a realização completa do bloqueio econômico. Em julho de 1917, o SNCP constitui-se assistente perante o tribunal de Saint Claude (Jura) onde ele contribui a condenar uma dezena de pessoas exportando ilegalmente borracha bruta e manufaturada na Suíça.

A Alemanha prossegue durante esse primeiro conflito mundial suas pesquisas na síntese da borracha. A primeira patente foi apresentada a partir de 1909. No final do conflito, o país conseguiu a proeza de produzir mensalmente em Leverkusen cerca de 150 toneladas de Dimetil-butadieno, chamado naquela época de metil-borracha!

A França se concentra em suas colônias africanas

O dia 24 de julho de 1918 foi implantado pelo ministério do armamento em tempo de guerra em parceria com o Sindicato da borracha, um comitê da borracha. Uma organização similar será criada em 1940. No fim do primeiro conflito mundial, trata-se simultaneamente de regulamentar as importações de gomas, favorecer a regeneração da borracha e repartir as matérias primas entre os diferentes industriais.

Esses últimos também estão incitados a intensificarem suas compras de borrachas na África Ocidental ou Equatorial francesa. A profissão, por meio do seu Sindicato, realça a qualidade frequentemente precária da borracha selvagem oriundos de povoamentos naturais de árvores ou lianas (Funtumia, Castilloa, Landolphia) e sua incompatibilidade com algumas produções tais como a impermeabilização dos tecidos, a fabricação de pneus, cabos, entre outros.

4. NOVAS MISSÕES PARA O SINDICATO DA BORRACHA (1918-1939)

Início das obras de normalização

Em 1918, a secção dos fabricantes de ataduras do Sindicato apresenta um projeto de "Estandardização" a fim de uniformizar as dimensões e diminuir o número de tipos em uso. Trata-se ‘’de conseguir o uso mais ordenado e racional de todas as matérias primas que empregamos. Esperamos ser aprovados pelos construtores de caminhões e os serviços militares".

Lista dos membros da seção dos fabricantes de ataduras do Sindicato da borracha – 1918

Bergougnan,

Dunlop,

Dynamic

Goodrich,

Grammont,

Hutchinson,

L’Urbaine, Manufacture Parisienne de Caoutchouc,

The India Rubber Gutta-percha et Télégraph Works Company Limited.

Influências para um abastecimento de borracha dentro do Império

Em 1919, com o intuito de favorecer o desenvolvimento da produção indochinesa, Ernest OUTREY, deputado da Cochinchina, pede para a Câmara o estabelecimento de um direito de 1,50 frs (1,90 €) por quilograma sobre as borrachas brutas provenientes do exterior. O Sindicato da borracha se opõe a esse projeto, desenvolvendo argumentos de livre-comércio em um opúsculo publicado nesse efeito.

O deputado OUTREY persiste e, em 1922, apresenta novamente uma proposta de lei instituindo desta vez o direito de 2 frs por quilo.

A taxa não será adotada nem em 1919, nem em 1922, evitando uma degradação da competitividade dos itens franceses. A questão relativa à preferência colonial permanecera, no entanto, viva no decorrer dos nos anos seguintes.

No princípio dos anos 30, a crise da superprodução e o colapso da produção de borracha natural obrigaram os produtores indochineses a juntar-se e a reclamar, mais uma vez, um direito alfandegário relativo às borrachas brutas provenientes do exterior e entrando na França. Apesar do apoio dos cultivadores pelo ministro das colônias, o ponto de vista dos transformadores de borracha, defendidos pelo Sindicato da borracha, prevalece.

Esse fracasso não impede aos produtores de conseguirem, alguns meses depois, uma ajuda financeira pela fundo de compensação para os produtos coloniais. O direito alfandegário se torna uma taxa especial de 30 centavos por quilo de borracha entrando na metrópole. Os importadores de borracha, por meio do Sindicato da borracha, criticaram severamente essa medida.

Extrato do relatório apresentado por Sr PUJALET em nome do Sindicato da borracha na alteração de Sr OUTREY - 1919

"A França optou pela liberdade das matérias primas como principal meta alfandegaria. Todos os industriais franceses estão dispostos a darem preferência às borrachas das nossas colônias, porém para isso é necessário que essas colônias sejam capazes de fornecer o necessário à indústria metropolitana. […]

Qual seria a solução proposta aos industriais pela aplicação da taxa que propõe M.OUTREY? A indústria da borracha, que se desenvolveu consideravelmente na França no pós-guerra, para atender a quaisquer necessidades da Defesa Nacional, veria seus esforços realizados reduzidos a zero. Não poderíamos mais enfrentar a competência nos mercados exteriores contra os industriais residentes nos países onde a borracha está isenta. Essa concorrência se estabelece inclusive em nosso país. Alguns industriais franceses poderiam ser incitados a transferirem suas fábricas fora da França. A indústria da borracha, em plena prosperidade, sofreria um golpe fatal; cerca de 60 000 operários e operárias que ela emprega e pelos quais recebem anualmente um salario de aproximadamente 150 000 francos poderiam se tornar parcialmente desempregados, e não é nesse momento em que a França precisa de toda sua atividade econômica, para se recuperar de todos os tipos de perdas que ela sofreu, que tal eventualidade pode ser considerada."

Ascenção do protecionismo

As medidas protecionistas de todos os tipos se multiplicam depois da crise de 1929. Em 1930, a nova pauta alfandegaria americana impõe uma taxa de 30% na maioria dos produtos feitos de borracha. A Espanha, por sua vez, fecha as fronteiras para a entrada dos pneumáticos através medidas proibitivas. As relações comerciais com Alemanha são interrompidas em 1933; as com Inglaterra ficam difíceis.

Na França, a ameaça de importações massivas, paralisando a atividade nacional, obriga, em 1934, o governo a regulamentar a importação das mercadorias estrangeiras em especial as de pneumáticos e peças técnicas feitos de borracha. O Ministério do comércio é encarregado pela repartição dos contingentes após consulta do Comitê interprofissional da borracha. Esse comitê se compõe de fabricantes, importadores e usuários. O Sindicato da borracha é amplamente representada.

Assembleia geral do Sindicato da borracha - 1931

"As questões que o nosso Sindicato teve que examinar no decorrer do ano de 1930 foram mais uma vez muito variadas, mas as que eram relativas aos direitos alfandegários ocuparam o primeiro lugar nas suas preocupações.  

O mundo inteiro, de fato, atravessa um período difícil que leva a novos problemas, e cada país, para resolvê-los encontrou apenas uma solução: a proteção extrema" Sr HAUSSER secretário do Sindicato da borracha

1936, uma convenção coletiva da borracha para a Região Parisiense

O Sindicato da borracha assina com o Sindicato das Indústrias Químicas e a Federação das indústrias químicas, dia 20 de outubro de 1936, uma convenção coletiva regulando as relações entre empregadores e operários das indústrias da borracha e relacionados com a Região parisiense (Sena e Sena e Oise). Em 1937, essa convenção será ratificada pela União dos Sindicatos cristãos de operários. A adoção de uma convenção nacional só terá lugar, em 1953!

5. PROMOVER O USO DA BORRACHA (1918-1939)

Pressões para um abastecimento em borracha dentro do Império colonial

Em 1924 é criado, pelo Sindicato da borracha, a revista geral da borracha que centraliza as informações técnicas, econômicas e científicas na indústria da borracha. Essa revista tem como objetivos contribuir ao desenvolvimento e à prosperidade da indústria da borracha, de avisar os aderentes assim como os próprios cientistas das últimas invenções ou descobertas.

Essa revista profissional será confiada ao Instituto francês da borracha em 1940, e em seguida cedida, em segundo momento, a um grupo de imprensa profissional. No entanto, o Sindicato da borracha permanecerá dentro do comitê de orientação da revista até o princípio dos anos 2000. Em 2013, o título ainda existe sob a apelação "Plastiques et Caoutchoucs magazine" (revista Plásticos e Borrachas).

Revista geral das borrachas, 1924.

"O projeto de criar uma Revista Geral da Borracha, sob os auspícios do Sindicato da Borracha, só pode aderir aos sufrágios de todos que estimam que a documentação deva integrar cada vez mais nossas usinas. Tudo o que tentaremos para garantir segundo bases científicas nossa indústria, independentemente do assunto, contribuirá ao seu progresso, seu desenvolvimento e sua prosperidade

A. Haller, diretor da Escola de Física e Química industrial

Um livro de ouro da borracha em 1927

Em 1927, o Sindicato da borracha francesa organiza no Grand Palais em Paris, a 7a exposição internacional da borracha. A secção francesa será particularmente relevante e ocupará toda a parte central do prédio, ou seja, cerca de mil quinhentos metros quadrados! Nesta ocasião, será publicado um "Livro de ouro da borracha" com a participação de personalidades eminentes entre os quais Edouard MICHELIN, Alberto PIRELLI, Emile ALCAN e Oscar ENGLEBERT.

Uma enciclopédia da borracha em 1929

Em 1929, o Sindicato da borracha publica uma obra relativa à vulgarização sobre a tecnologia da borracha denominada "Enciclopédia da borracha e das indústrias vinculadas". Essa obra contém 500 páginas e é composta de 4 capítulos respectivamente com base na produção da borracha bruta, a borracha vulcanizada, as diferentes fabricações e as pesquisas científicas e técnicas.

Prefácio Enciclopédia da borracha

Diante do sucesso dos bairros coloniais das exposições universais, surge a ideia de organizar as manifestações a favor dos territórios ultramarinos. Várias edições terão acontecerão na França especialmente em Marselha em 1922, Estrasburgo em 1924 e, sobretudo em Paris em 1931. Representando uma indústria nacional usando uma fábrica "colonial", o Sindicato da borracha expõe e intervém durante essas manifestações.

A exposição colonial de 1931 em Paris, organizada no Bosque de Vincennes, acolherá durante 6 meses mais de 33 milhões de visitantes! O Sindicato da borracha aproveitará a oportunidade para organizar o 2° congresso dos técnicos da borracha, na sequência do qual será criada a Associação francesa dos engenheiros, antepassada da AFICEP.

A exposição colonial do ano 1931 sob a admiração de milhões de visitantes

Pelo sucesso dos bairros coloniais das exposições universais, a ideia de organizar manifestações a favor dos territórios ultramarinos. Várias edições terão lugar na França especialmente em Marselha em 1922, Estrasburgo em 1924 e, sobretudo em Paris em 1931. Representando uma indústria nacional usando uma fábrica "colonial", o Sindicato da borracha expõe e intervém durante essas manifestações.

A exposição colonial do ano 1931 em Paris, organizada no Bosque de Vincennes, acolherá durante 6 meses mais de 33 milhões de visitantes ! O Sindicato da borracha aproveitará a oportunidade para organizar o 2° congresso dos técnicos da borracha, na sequência do qual será criada a Associação francesa dos engenheiros, antepassada da AFICEP.

Enorme concorrência entre o couro e a borracha na área dos calçados

O período entre guerras se caracteriza pelo aumento das tensões entre as indústrias da borracha e do couro. OS dois setores são concorrentes diretos no mercado dos calçados. Campanhas de propaganda e depreciação se multiplicam. Em 1935, uma comunicação proveniente da indústria do couro, alega que o uso de alguns itens de borracha prejudica a saúde. Como protesto, o Sindicato da borracha multiplica as exposições do "grande público". Assim, uma quinzena da borracha é organizada no Grand Palais em Paris. Dezesseis firmas importantes, pertencentes ao Sindicato da Borracha participam nesse evento. Entre os quais os estabelecimentos Bergougnan, Hutchinson, Dunlop e também a sociedade Goodrich. Na entrada, aproximadamente 50 000 "exemplares" louvando as virtudes da borracha são distribuídos!

Revista geral da borracha, 1937.

"É através da fabricação das solas e dos saltos, que a borracha encontra seu maior uso. Progressos notáveis permitiram à borracha de agir como um simples sucedâneo do couro e o uso das solas e saltos de borracha, abriu aos fabricantes de sapatos novos horizontes. É a razão pela qual a competência estava tão intensa entre os fabricantes de solas de couro e de borracha e parece que hoje em dia, esses últimos têm a preferencia do público"

1937, um palácio da borracha na Praça da Concórdia

Durante a exposição internacional das artes e técnicas no ano 1937, o Sindicato da borracha, especialmente ao lado da União dos Plantadores da Indochina, vai participar da criação de um Palácio da borracha. Os conflitos da década de 20 e no princípio dos anos 30, entre os transformadores e plantadores, são ignorados e dão lugar a relações pacíficas entre as duas organizações da área. "Este palácio é sóbrio e racional, e um elegante exemplo da arquitetura moderna" será localizado em Cours-la-Reine próximo à Praça da Concórdia em Paris. Inaugurado em junho, ele cessará suas atividades no fim de novembro e acolherá mais de 500 000 visitantes. Durante seis meses, o grande público poderá descobrir, além dos stands de exposição e vitrines com mais 30 transformadores, várias exposições dedicadas às borrachas para a casa, o vestuário e também o automóvel. Os visitantes também poderão se informar do estado de desenvolvimento dessas novas matérias que constituem as borrachas sintéticas.

Em paralelo, o Sindicato da borracha em parceria com a AFICEP e a União dos plantadores, organizava um Congresso internacional da borracha. "Esse congresso foi um sucesso sem precedente, tanto pelo número de congressistas (aproximadamente 400) como pelo interesse dos assuntos tratados (mais de 40 comunicações científicas)".

Pós-guerra, prioridade das exposições profissionais

No Pós-guerra, as exposições "grande público" vão progressivamente dar lugar às feiras destinadas aos visitantes profissionais. Esse reposicionamento obedece a uma lógica de especialização crescente da indústria da borracha nos componentes com valor agregado extremamente alto. A necessidade de promoção permanece, mas os alvos e mídias utilizados são diferentes.

O Sindicato da borracha apresentará ou será envolvido no gerenciamento de muitas feiras implementadas a partir dos anos 1950: Feira da Química, da Borracha e dos Plásticos, Europlastique e Eurocaoutchouc, Midest, Caoutchouc-Caucho-Gomma... IRC 2013 integra essa perspectiva.

6. UMA ECONOMIA DA BORRACHA TOTALMENTE ADMINISTRADA (1939-1944)

Implantação de estoques de segurança da borracha

A pedido dos serviços da mobilização industrial, um agrupamento de importação e repartição durante a guerra da borracha foi criado em 1938 sob a égide da Maison Alcan ou do Sindicato da borracha. Esse grupo é descartado em Clermont-Ferrand no princípio do mês de junho de 1940; Sua ação acabará no final de julho.

Os membros da secção "fabricantes de pneumáticos" do Sindicato (Dunlop, Hutchinson, Goodrich, Michelin, Bergougnan, Englebert, SIT) por outro lado validam, em julho de 1939, uma "convenção sobre o armazenamento dos estoques de segurança" decorrentes de 10 000 toneladas de borracha bruta.

1940, uma antena do Sindicato da borracha na "zone livre"!

Em junho de 1940, os alemães requisitam as instalações do Sindicato da borracha; esses mesmos só serão restituídos no fim de julho. Enquanto isso, uma parte da equipe foi retirada para Clermont-Ferrand. Um departamento será criado e mantido para responder às necessidades dos industriais da "zone livre".

Num contexto de desordem econômica, o Comitê da diretoria do Sindicato da borracha prossegue suas obras. Entre junho e agosto, pelo menos sete reuniões ocorrerão em Clermont-Ferrand e em seguida em Paris! As reuniões se multiplicam a um ritmo acelerado para enfrentar a urgência da situação. O Sindicato, também, é forçado de reorganizar seu Comitê de diretoria após a demissão dos seus membros prejudicados pelas medidas contra os judeus.

A partição da França gera incontáveis burocracia dificultando seriamente o bom andamento dos negócios. Muitas empresas encontram graves dificuldades para chegar a suas fábricas, clientes ou fornecedores localizados do outro lado da linha de demarcação. O Sindicato da borracha vai rapidamente se tornar uma interface imprescindível, entre as empresas e a administração, para inúmeros trâmites: obtenção de livre-trânsito, vale-transporte, derrogações, autorizações...

O Estado apoia as organizações profissionais

Em 1940, a economia francesa estava totalmente desorganizada. Em menos de 48 horas, quatro especialistas elaboram a lei do dia 16 de agosto de 1940, criando os Comitês de organização. Esse texto permite ao Estado de intervir em todo o funcionamento das empresas. Algumas semanas depois, um segundo texto cria a Secretaria Central de Repartição dos Produtos Industrializados (OCRPI), dividida em secções.

Em outubro de 1940, com o intuito desses dois textos são criados respectivamente a "Secção Borracha e negro de fumo da secretaria central de repartição dos produtos industrializados" e o "Comitê de organização da indústria da borracha". O gerenciamento desses dois organismos, localizados nas instalações do Sindicato no endereço: 9 avenue Hoche em Paris, foi confiado a Georges PERRET que renuncia ao seu cargo de secretário geral do Sindicato da borracha.

A secção borracha tem como missão é repartir as matérias primas. O Comitê de organização da indústria da borracha, é concedido, entretanto, a um poder de decisão sobre a técnica, economia e social. Henry BALAY (Sociedade Bergougnan, Presidente do Sindicato da borracha) é diretor responsável da área pneumática, Paul LECAT (Sociedade industrial de telefones), diretor da área borracha industrial.

Portaria em 17 de outubro de 1940 para a criação de uma secção da borracha, do amianto e do negro de fumo da Secretaria central da repartição dos produtos industrializados, e nomeando os membros dessa secção  (D.O.U de 23 de outubro de 1940).

O ministro e secretário de Estado da produção industrial e do trabalho;

Perante a lei de 10 de setembro de 1940, decorrente da organização da repartição dos produtos industrializados;

Portaria:

Artigo primeiro. - Foi criada uma secção da borracha, do amianto e do negro de fumo na Secretaria de repartição dos produtos industrializados instituído pela lei de 10 de setembro de 1940. O chefe repartidor dessa secção exerce os poderes previstos pelo artigo 3 de tal lei relativo às matérias primas, produtos semi-acabados e produtos acabados, o que inclui a borracha natural ou sintética, o látex, a borracha regenerada e os resíduos, até sua consumação, exceto a repartição do vestuário confeccionado de tecido.  […]

Artigo 3.- O repartidor será auxiliado por dois comitês consultivos : um comitê para a borracha e o negro de fumo, que incluirá seis a doze pessoas, e dos quais representantes da indústria da borracha e do negro de fumo, que serão convocados quando for preciso na ordem do dia, e um comitê para o amianto, composto de três a seis pessoas.

René BELIN

Pesquisa de alternativas relativas à borracha natural

Rapidamente o mercado da borracha natural asiática foi fechado. A maioria dos Estados, apesar das ameaças de guerra e a baixa disponibilidade da borracha natural, não constituíram estoques de segurança suficientes. A pesquisa de matérias alternativas da borracha asiática a partir desse momento se torna necessária: borracha natural africana, ou sul-americana para os USA, borrachas sintéticas, borrachas regeneradas... A regeneração dos pneumáticos usados se globaliza num primeiro tempo, mas em seguida diminui rapidamente na França, pela rarefação dos fluxos devido ao colapso da circulação automóvel privada.

Nesse contexto, as borrachas sintéticas se tornam um desafio essencial. Os alemães dispõem no princípio da guerra, de um monopólio quase total da produção por meio do know-how adquiridos em IG Farbenindustrie. "Os Buna", palavra qualificando as borrachas sintéticas preparadas a partir do butadieno relativo a um processo alemão, vão não só dar suporte a máquina de guerra nazista, mas também ser usados como moedas de troca.

« Da Buna contra as participações financeiras nas sociedades francesas » (*)

Em setembro de 1941, um acordo de princípio foi concluído entre a Secretaria de repartição e as autoridades alemãs. Cinco casas (chamadas casas de comandos) recebem diretamente das firmas alemãs licenças e verificações técnicas necessárias para o uso da Buna. Um número de fábricas francesas estão autorizados a se tornarem licenciadas das casas piloto para obter a técnica operacional do Buna para os seus próprios produtos. Em contrapartida, a Alemanha exige a partilha dos mercados exteriores, das participações financeiras nas empresas, e o desenvolvimento de previsões para o fornecimento de Buna a longo prazo. Esses requerimentos permanecerão frequentemente inaplicados.

(*) Você poderá ler sobre esse assunto com muito interesse na obra de Francis KOERNER "Guerras Mundiais e conflitos contemporâneos" PUF e especialmente o capítulo intitulado "O controle da indústria francesa da borracha pela Alemanha nazista"

O varejo de pneumáticas proibido desde outuno 1940

A partir de 1940, a produção de itens em borracha colapsa e só representa 44% do valor registrado em 1938. A oferta está paralisada pela desorganização do sistema produtivo, a falta de matérias primas e mão de obra suporta, consequentemente, uma grande extração pelas autoridades de ocupação. Todos os preço de venda estão bloqueados. Para enfrentar a penúria de matérias primas, a fabricação de alguns itens feitos de borracha está proibida pelo repartidor: itens de esportes, brinquedos, tapetes, peças prediais e mobiliários...

O varejo de pneumáticas e câmeras de ar também é proibido, exceto com derrogação, a partir de outubro de 1940. Do mercado negro ao mercado Puces de Saint-Ouen, o valor do pneu de bicicleta atinge a quantia de 100 Frs (ou seja, 250 euros)! A partir de 1942, as fábricas de pneumáticos, consideradas como alvos estratégicos pelos ingleses e americanos, foram bombardeadas e destruídas massivamente: estabelecimentos Dunlop em Montluçon em setembro de 1943 e a fábrica Cataroux de Michelin em Clermont-Ferrand em março de 1944.

Decisão do dia 4 de outubro de 1940

O uso da borracha na fabricação dos itens seguintes é doravante proibido.

" -Itens esportivos exceto câmaras para bola de futebol e tecidos de borracha destinados a esses itens.  

-Brinquedos e acessórios de brinquedos.

-Itens de propaganda, de luxo ou conjunto de qualquer natureza.

-Itens destinados a serem usados na construção dos automóveis, motos e bicicletas exceto os elementos destinados às partes mecânicas.

-Tapete de qualquer natureza.

-Itens destinados aos imóveis ao mobiliário.

-Bandagens diferentes das gomas destinadas aos veículos automóveis. .

Recordamos que não é nem a fabricação, nem a venda de alguns itens são proibidas, mas somente o uso da borracha bruta na fabricação desses itens; esses itens continuarão a serem fabricados unicamente com base de regenerados."

O repartidor, chefe da secção borracha e negro de fumo da secretaria central de repartição dos produtos industrializados.

Assembleia geral do Sindicato da borracha - 1943

"É sob a sensação de eventos particularmente difíceis que acabei de terminar a redação desse relatório. Efetivamente, com a partida para a Alemanha, da maior parte dos especialistas ou operários qualificados que permaneciam em nossas fábricas, nós podemos nos perguntar com preocupação o que vai acontecer, nessas circunstâncias, com as nossas pequenas ou grandes empresas. 

Com esta preocupação, ainda crescente nessas primeiras semanas de 1943 que, no decorrer do ano passado, foi o sentimento dominante, de cada um de vocês. Além disso, com todas as dificuldades materiais do presente, especialmente as dificuldades de transporte com todas as perdas de tempo e cansaços envolvidos, daí me atrevo a contar objetivamente que nós vivemos um ano triste... ".

Martin d’AIGUEPERSE, Secretário do Sindicato da borracha, assembleia geral de 1943, relatório das obras do Sindicato de 1942

7. OS DESAFIOS DA LIBERAÇÃO (1944-1948)

O país inteiro deve ser reconstruído

"Temos por diante de nós, uma tarefa imensa: o país inteiro deve ser reconstruído. Queremos reconstruir nossa França livre, forte e unida. Nesse imenso trabalho de reconstrução, o Sindicato não falhará na sua tarefa em todas as áreas próprias: econômica e social. "Desejamos trabalhar no próximo advento a favor de uma paz sólida e estável". Foi com essas palavras que Sr Lelievre, Hutchinson, vice-presidente do Sindicato inicia seu discurso na Assembleia Geral, no dia 12 de setembro de 1944.

A libertação está associada a uma conscientização da renovação do Sindicato da borracha para levar em conta as modificações institucionais do pós-guerra. Os comitês de organização são substituídos por escritórios profissionais. O Sindicato da borracha deve continuar sua missão de representação e defesa da profissão da borracha nesse novo contexto.

1944, as fábricas francesas abastecem o exército americano em pneus

Durante o verão de 1944, um acordo foi celebrado entre o governo provisório francês e o exercito americano para o fornecimento de pneumáticos imprescindíveis para a progressão das tropas aliadas. Por isso, os americanos fornecem para as fábricas francesas, as preciosas matérias primas que faltavam durante a ocupação. Os industriais franceses descobrem as novas borrachas sintéticas fabricadas nos USA (GRS: Governo Rubber Estireno). A operação é acompanhada pelo Sindicato que não hesita em intervir a fim de assegurar o pagamento das mercadorias nos melhores prazos. A operação expira em 30 de junho de 1945. O exército americano deixa, então, de fornecer borracha para a indústria francesa. Por conseguinte, no âmbito de uma economia totalmente administrada, o governo francês devera mobilizar as divisas necessárias para comprar no exterior gomas naturais ou sintéticas indispensáveis à atividade da indústria.

Reparação dos danos de guerra

No âmbito da reparação dos danos de guerra, a indústria alemã pagará um tributo pesado em natureza para as nações aliadas. Muitas máquinas-ferramentas são desmontadas e transferidas para França. Misturadores de cilindros, prensas, extrusoras atravessarão o Reno e contribuirão à recuperação produtiva da França. O Sindicato da borracha terá como missão assegurar a repartição desse estoque de maquinas de acordo com os pedidos recebidos.

O Laboratório de Pesquisas e de Controle da Borracha

Em 1942, o Comitê de organização da indústria da borracha tinha criado um laboratório de controle necessário às obras de repartição das matérias primas. A ideia não era nova, na medida em que a partir de 1938 um projeto similar tinha sido elaborado com base em um financiamento do Estado e do Sindicato. Após a dissolução do Comitê de organização da borracha, o Sindicato da borracha suporta diretamente a gestão do LRCC e se compromete a financia-lo por uma contribuição voluntária da Profissão. Em 1985, foi adicionado uma letra suplementar no acrônimo LRCC, o "P" de plástico. Em 2013, O LRCCP beneficia do rótulo Cetim Carnot.

LRCCP 1953

"Esse laboratório foi criado com o objetivo de servir a indústria da borracha e das matérias plásticas, na área técnica. Ele faz os melhores esforços e de diversas maneiras:

-para obras particulares executadas a favor dos industriais da borracha, ou a favor das secções do Sindicato que pedem o estudo, por exemplo, dos cadernos de encargos, das normas de qualidade, ou a favor dos não borracheiros : fornecedores, clientes, administração, ministérios, alfandegas, organismos como a AFNOR e o ISO, etc.

-por estudos gerais publicados no boletim;

-ao participar ao ensino profissional do técnico da borracha."

Henri JACQUEAU, Presidente do LRCCP 1953

As dificuldades de abastecimento de matérias primas persistem!

No pós-guerra, falta dinheiro para importar borrachas naturais ou sintéticas. Em 1946, o departamento profissional de repartição da borracha (BPRC) está implantado. O Sindicato da borracha atuará como apoio ao operário e dirigirá as operações de repartição das primeiras cargas de borracha natural indochinesas conseguindo abastecer a metrópole após cinco anos de interrupção!

Em 1953, o BPRC será reconhecido pelas autoridades públicas para atuar como intermediário na realização dos estudos estatísticos obrigatórios do ramo cujos resultados são imprescindíveis a todas as operações de repartição. Nos anos 60 e 70, essa atividade de produção de estatísticas industriais será cada vez menos relacionada com as atividades de repartição mas se inscreverá numa lógica de acompanhamento conjuntural. No início dos anos 80, o BRPC e o Sindicato da borracha perderão sua homologação, e os inquéritos de produção serão realizados diretamente pelo Ministério da Indústria.

Portaria de 28 de março de 1953 publicada no Diário oficial de 02. 04.1953

« Artigo 1- o Sindicato Nacional da Borracha e das indústrias vinculadas ; o Sindicato Geral dos Comércios e Indústria da borracha e a Câmara Sindical Nacional da Pneumática são reconhecidos pela elaboração das estatísticas das indústrias e comércios na sua jurisdição. Eles confiarão, sob sua responsabilidade, a execução dessas obras estatísticas para seu departamento profissional comum no 9, avenue Hoche-Paris 8°»

8. O TEMPO DA RECONSTRUÇÃO E DA MODERNIZAÇÃO  (1948-1955)

Agrupamento pela constituição da indústria da borracha

Em 1945, a França e a Europa devem ser reconstruídas. As lutas causaram muitas destruições e isso afetou as infraestruturas envelhecidas e que sofreram do sub-investimento dos anos 30. Na indústria da borracha, talvez mais do que em outros setores, as necessidades são enormes por causa de bombardeamentos destruidores de várias fábricas. Para financiar as obras, os poderes públicos autorizam, em junho do ano 1948, a constituição de uma sociedade anônima, chamada "Agrupamento da reconstituição da indústria da Borracha". Sua missão é o financiamento das despesas de reconstrução dos bens sinistrados da indústria da borracha. A sede social desse agrupamento está localizada em Paris, 9 avenue Hoche, nas instalações do Sindicato da borracha. O presidente desse grupo é o Sr SCHOELLER, representante-geral do Sindicato. Esse organismo será dissolvido em 1962.

Missões de produtividade nos USA

No pós-guerra, a França está não só em reconstrução, mas também deve imperativamente ser modernizada para recuperar o atraso dos anos 30. A partir de 1949, no âmbito do plano Marshall, muitas missões de estudos profissionais vão chegar aos Estados Unidos a fim de ‘’procurar as causas da alta produtividade americana e estudar os métodos de aplicação". Em 1952, uma primeira missão borracha de aproximadamente dois meses é organizada pelo Sindicato da borracha. A delegação está composta de quatorze membros, pertencendo a oito firmas. Entre os quais os representantes da sociedade Pincet et Baratte, Kléber-Colombes, SIT, Auto-Câble, Palladium, Wolber, Hutchinson e Dunlop. A restituição das informações coletadas se efetuará sob a forma de conferências e publicação, pelo Sindicato da borracha, de um relatório de estudo.

No princípio do ano 1955, uma segunda missão de produtividade completará e aprofundará as lições retiradas da missão de 1952.

Manufaturas americanas de borracha visitadas em 1952 pela missão SNCP

Nomes Especialidades
US Rubber Borracha industrial, mangueiras, correias
Armstrong As Pneumáticas
Hood Sapatos
Converse Sapatos
Firestone Pneumáticas, borracha industrial
Firestone Xylos Regenerado
B.F Goodrich Pneumáticas, borracha industrial
Hewitt Robins Borracha industrial, mangueiras, correias
Sweet Moldagem
Faultless Higiene, jogos
Bearfoot Solas
General Tire Pneumáticas
Colonial Chamberlain Moldagem
Pyramid Chupetas
US Rubber/Fisk Pneumáticas
Stokes Moldagem
Acme Mangueiras

Uma convenção coletiva nível nacional

O pós-guerra se caracteriza por uma real vontade de melhorar o dialogo social. Muitas estruturas paritárias são implementadas. As convenções coletivas, criadas a partir de 1919, se multiplicam e vão simbolizar essa vontade de progresso social. Na área da borracha, uma 1ª convenção coletiva a caráter regional (Sena e Sena-e-Oise) foi celebrada em 1936.

As negociações, conduzidas sob a égide do Sindicato da borracha, estão abertas novamente no ramo borracha no fim dos anos 40. Elas serão longas e difíceis, mas levarão à assinatura no dia 6 de março de 1953, da primeira Convenção Coletiva Nacional da Borracha. Esse acordo é assinado, do lado patronal pelo Sindicato nacional e pelo Sindicato geral dos comércios e indústrias da borracha e do lado dos assalariados pela CGT (Confederação Geral do Trabalho)-FO (Força Operária), a CFDT (Confederação Francesa Democrática do Trabalho) e a CGC (Confederação Geral dos Executivos). Desde 1953, o Sindicato da borracha é co-administrador. Essa convenção registrou numerosos aditamentos desde sua criação há 60 anos. Em 2013, ela contribui para estruturar o dialogo social no ramo.

Criação de uma estrutura dedicada à formação profissional

O interesse da formação profissional para o Sindicato da borracha nasce sob a ocupação. A França sofre de penúria de operários, penúria mitigada pelos planos de encargos nas fábricas extremamente baixas pela falta de matérias primas. Porém as necessidades futuras são corretamente antecipadas pelo Sindicato da borracha.

Em 1942, Martin d’Aigueperse, secretário do Sindicato, afirmava "Não trabalhamos para o agora. Só podemos trabalhar para o futuro e não tenho ilusões ao declarar que atualmente é pelo desenvolvimento da aprendizagem, a otimização da mão de obra e a educação dos executivos que iremos obter a perfeição no trabalho, na economia e na prosperidade". Em 1956, uma comissão da Formação Profissional dentro do Sindicato é implantada. Em 30 de agosto de 1957, as obras resultam na criação de um diploma profissional de técnico de borracha, diploma do Estado. Ao mesmo tempo, constitui-se a associação para a formação profissional de acordo com as técnicas de indústria da borracha (AFOCA). Em 1974, a AFOCA será agrupada com as atividades de formação inicial do instituto francês da borracha e dará origem ao IFOCA (Instituto nacional da formação e do ensino profissional da borracha).

Algumas datas históricas do IFOCA.

1936: criação do Instituto Francês da Borracha, organismo de pesquisas científicas e técnicas da borracha natural.  

1943: decreto do Ministério da Educação Nacional reconhecendo à IFC (Instituto Francês da Borracha) o direito de emitir o diploma de engenheiro IFC.  

1956: IFC cria uma secção tecnológica aberta aos titulares de DUT (Diploma universitário tecnológico), BTS (Certificado de técnico superior) ou DEUG (Diploma de estudos universitários gerais), chamado Centro de formação dos executivos.

1957: criação do AFOCA (formação contínua) pela SNCP

1973: a escola de engenharia e o centro de formação deixa os locais da rue Schaeffer e a sede do IFC e se instala em Montrouge, nos locais do LRCCP.  

1974: Fusão da Escola de Ensino Técnico e do Centro de Formação dos Executivos Técnicos com AFOCA. Nascimento do IFOCA.

1985-1986: O IFOCA, o LRCCP e o Sindicato da borracha se mudam para 60, rue Auber em Vitry/Sena.  

9. A EUROPA DA BORRACHA (1955-1970)

Um escritório de relação dos sindicatos europeus em Bruxelas

Desde 1955, um primeiro encontro ocorre em Bade-Bade na Alemanha entre diferentes sindicatos da borracha europeia para refletir sobre a criação de uma estrutura relacional permanente e a adoção de posições comuns. Em 1959, o BLIC (Departamento de relação das indústrias da borracha) é oficialmente criado em Milão pela Alemanha, Itália, Bélgica, Países Baixos e França. Outros países integrarão o BRIL em um segundo momento (Espanha, Grã Bretanha, Finlândia, Hungria...). Esse departamento será implementado em Bruxelas e representará a indústria da borracha perante as instâncias da Comunidade europeia. A questão dos direitos alfandegários constituirá um desses primeiros assuntos de trabalho.

Em 2006, a estrutura será reformada e renomeada ETRMA (European tyre and rubber manufacturer’s association).

Uma associação dos fabricantes europeus de fitas adesivas

Em 1958, o Sindicato da borracha antecipa a construção europeia e cria a associação dos fabricantes europeus das fitas adesivas (AFERA). Essa estrutura tem como objetivos manter e desenvolver relações de boa confraternidade entre todos seus aderentes. Ela estuda a traz uma solução aos problemas técnicos, econômicos e sociais comuns a todos seus membros. A sede da AFERA está localizada em Paris, 9, avenue Hoche (8°) ! O Comitê de diretoria, encarregado de decidir das obras da organização, se compõe de seis membros: 1 membro alemão, britânico, francês, italiano e 2 outros membros apresentados pelos outros países europeus.

A AFERA manterá os locais do Sindicato da borracha até 1998, data pela qual será transferida para Haia, nos Países Baixos. Em 2013, o Sindicato da borracha dirige um grupo de trabalho fitas adesivas técnicas envolvendo os principais atores do mercado francês e permanece, contudo membro da AFERA.

Dinamismo industrial

O tratado de Roma, celebrado em 1957, abre o caminho para uma maior integração econômica das nações europeias. Essa política vai apoiar o desenvolvimento econômico dos países membros e favorecer a implantação de novas unidades industriais destinadas a atender esse vasto mercado de aproximadamente 180 milhões de habitantes. No fim dos anos 50 e no princípio dos anos 60, será criada na França, por meio dos capitais europeus e americanos, de várias fábricas de borrachas sintéticas e de negro de carbono (Cabot, Société des élastomères de synthèse, Socabu, Polymer corporation, Bayer...), e vários estabelecimentos dedicados à produção de pneumáticas (Firestone, Goodyear, Michelin, Continental, Hutchinson...). A produção de pneumáticas e peças técnicas de borracha que atingia uma produção de 250 KT em 1950, chegou a 500 KT em 1960 e a 870 KT em 1970. Ela atingirá 1 300 KT em2000.

As primeiras fábricas de borrachas sintéticas na França

Datas Sociedade Localização
1959 Société des Elastomères de synthèse (Shell, Saint-Gobain, Cabot, Texas Butadiène) Etang de Berre (13)
1959 Société du caoutchouc Butyl (Compagnie Française de Raffinage, Esso Standard, Michelin, Kléber Colombes, Rhône- Poulenc…) Notre-Dame-de-Gravenchon (76)
1962 Firestone Port Jérôme (76)
1963 Polymer Corporation Estrasburgo (67)
1964 Michelin Bordéus (33)
1968 Compagnie française Goodyear Le Havre (76)

Novas fábricas de pneumáticas na França

Datas Sociedade Localização
1958 Dunlop Amiens (80)
1960 Michelin Tours (37)
1960 Firestone Béthune (59)
1960 Goodyear Amiens(80)
1962 Continental Sarreguemines (57)
1962 Pneu Laurent Avallon (89)
1963 Kléber Troyes (10)

Fonte : arquivos SNCP

10. NOVAS MUTAÇÕES (1970-2000)

Liberalização dos preços de venda industrial muito lenta

Durante cerca de 50 anos, o Sindicato da borracha garantiu a interface entre os poderes públicos e os industriais da borracha para gerenciar a evolução dos preços de venda industriais.

O enquadramento dos preços de venda se torna uma realidade, na França, desde o fim dos anos 30, no âmbito de uma economia confrontada com fortes tensões inflacionistas. Esse enquadramento será integral no decorrer da guerra e permanecerá depois da libertação. Repetidamente, o Sindicato da borracha negociará com as autoridades competentes (Comitê nacional de vigilância dos preços, Secretaria de Estado para a produção industrial...) autorizações de revisões tarifárias ao denunciarem constrangimentos irrealistas comprometendo a capacidade financeira das empresas. A liberalização dos preços de venda se efetuará bem progressivamente com um sequenciamento de períodos de "liberdade vigiada", "compromisso contratual", "envolvimento de moderação", "congelamento". Será necessário esperar o fim dos anos 70 para encontrar um regime total e duradouro da liberdade dos preços!

Bloqueio dos preços  - Portaria do dia 27 de maio de 1941

Os fabricantes de itens em borracha são autorizados a aplicarem aos preços de venda praticados por eles próprios, em 1° de setembro de 1939, os seguintes aumentos máximos:

Tecidos emborrachados 83 % Sapatos e botas 76 %
Ebonite 57 % Mangueiras sem lona 62 %
Itens higiene e esportes 60 % Mangueiras de lona 72 %
Fios elásticos 77 % Correias transportadoras 94 %
Pneus auto - moto 75 % Correias de transmissão 91 %
Pneus bicicleta 52 % Esfoliação 71 %
Solas e saltos 47 %    

Boletim oficial dos serviços dos preços n°5 - 30 de maio de 1941

Relatório de atividade do Sindicato da borracha 1977

"Alguns condicionamentos regulamentares desconhecem as realidades econômicas e impuseram a nossa indústria limitações de preços bastante rigorosas. A evolução autorizada dos preços de venda não permitiu impactar corretamente o aumento dos custos. A rentabilidade das empresas foi fortemente degradada. A situação financeira decorrente desta situação é preocupante.

O sindicato interveio constantemente de modo a obter dos Poderes Públicos a supressão desses condicionamentos irrealistas e o restabelecimento das condições permitindo a reconstituição da capacidade financeira das empresas.

O congelamento dos preços, seguido de um curto período de liberdade, em setembro de 1976, para todos os produtos da indústria da borracha foi prolongado em 1977 durante todo o mês de janeiro. As discussões com a administração conduziram ao desenvolvimento de um compromisso de moderação para a borracha industrial. Por meio desse compromisso que determinava o regime de preços dos produtos do ramo da borracha industrial no ano 1977, a profissão se comprometia a limitar suas majorações de preço de 6%".

Henry PIERRE-BIZOT, secretário do Sindicato da borracha

Borrachas e plásticos

No decorrer da segunda guerra mundial, a escassez de borracha natural, conduz os transformadores franceses a usarem outras matérias primas, borrachas sintéticas, mas também policloreto de vinil. Progressivamente, a atividade do Sindicato abrange a defesa dos interesses das empresas fabricando itens compostos de "novas" mat